Fogos sem medo

Fogos sem medo

Comemorar a virada de ano é uma festa para todo mundo, certo? Bem, nem para todos! A turma dos peludos realmente detesta toda a barulheira proporcionada pelos fogos e, em meio à felicidade geral, fica perdida e desorientada, correndo de um lado para outro. Preocupados com a reação de desespero, muitos donos abraçam, fazem carinho e dizem palavras de consolo para tentar amenizar os efeitos de toda aquela confusão. Na maioria das vezes, a atitude humana não funciona e quanto mais carinho, mais o cão treme e demonstra medo da situação. Para entender o que acontece, é preciso analisar as possíveis causas de um cachorro ter medo de tanto barulho:

Fatores genéticos

Alguns cachorros são mais sensíveis do que outros simplesmente porque já nasceram assim. Eles demonstram isso desde cedo, buscando abrigo entre a ninhada quando, por exemplo, alguém bate palma ou dá um assovio forte. Neste caso, não há muito a fazer. A alternativa é tentar a dessensibilização gradual (abaixo), e torcer para que ele supere seus medos.

Trauma

Os cães jovens passam pelo que chamamos de “fases do medo”, são períodos de 1 a 2 semanas, onde a mente dos cães fica especialmente sensível a experiências ruins. A primeira acontece entre 8 e 11 semanas e a segunda em algum momento entre o 7º ao 12º mês de vida do cão. Experiências ruins durante essas fases tendem a se fixar na memória do filhote pelo resto da vida, então é importante evitar traumas quando se percebe que o filhote está mais sensível. Obras, viagens de avião e grandes comemorações numa dessas fases podem piorar uma sensibilidade genética já existente.

Falta de exposição a novas situações

Os filhotes aprendem a reagir de acordo com o meio em que vivem, por isso é importante que sejam expostos à maior variedade possível de situações, barulhos e pessoas diferentes. Um cão que vive em uma família cheia de crianças, por exemplo, dificilmente ele irá se importar com a barulheira generalizada, já um cão criado em uma casa sem barulho, se não for exposto ao mundo lá fora pode ficar inseguro até mesmo quando bombinhas estouram na rua. 

Barulho + má experiência

Se uma tábua de passar roupa cair em cima da patinha do cão, por exemplo, causando dor, além do estrondo, ele poderá passar a ter medo de barulhos altos e secos. Diferente da fase de impressão do medo, aqui os estímulos negativos precisam ser muito fortes para que o medo se torne permanente. Então, em caso de acidente, procure não dramatizar a situação, quando mais o filhote perceber que você está bem, melhor ele ficará.


Medo recompensado

A pior coisa que podemos fazer ao cão é recompensar o medo com carinhos e afagos. Se toda vez que o cachorro apresenta sinais de medo e nós tentamos acalma-lo com palavras suaves, com carinhos, ou dando colo, estamos sem querer passando a mensagem incorreta de que ter medo é bom. O tom de voz e o colo, que para nós indicam carinho, para ele indicam validação, fazendo com que o cão acredite que deve mesmo ter medo, e com isso ele fica cada vez mais sensível.


O que fazer com filhotes?

Exponha o filhote com segurança. Faça festas em casa com seus amigos e familiares que gostem muito de cachorros. É importante que ele conviva com bastante gente e associe barulhos à coisas boas. Com o consentimento do veterinário (que vai orientar se a região em que você mora é muito perigosa para a saúde do seu filhote), leve o pequeno para passear de carro ou no colo. Deixe que ele ouça os sons da rua. Qualquer sinal de estresse, volte pra casa sem drama e sem tentar consola-lo. Dê meia volta e tente novamente num horário mais calmo. É importante preparar o filhote para situações novas que provavelmente farão parte da vida dele no futuro. Tenha uma atitude positiva, não superproteja e peça para não brincarem de dar sustos no filhote. 

E se o medo já existe?

Para corrigir problemas já existentes, o método a ser empregado varia de cão para cão, de acordo com o grau de sensibilidade e medo. Todos os métodos tomam tempo e exigem paciência. Alguns cães têm uma melhora sensível, outros demonstram apenas pequenas melhoras, mas sempre vale a pena tentar, já que é pelo bem do peludo.
Motivação e Mudança de Comportamento:

Este método consiste na mudança de comportamento da família. O negócio é fazer muita festa e procurar estimular o peludo a investigar a fonte do barulho, e não deixá-lo fugir ou tentar protegê-lo. Toda vez que os estouros começarem, procure levar o cachorro para janela, ou para o quintal. Corra de uma lado para o outro, junto com o cão, fingindo que você está procurando o bicho barulhento (os fogos no caso). Use palavras estimulantes como olha, procura, pega, vamos ver, etc. Depois de alguns minutos, especialmente se os fogos cessarem, diga: “Muito bem amigão, colocamos ele pra correr!”, e volte para a sala, deixando o cachorro solto e livre para ir aonde ele quiser. Se o cão ficar deitadinho do seu lado, com aparente calma, pode encher ele de afagos, caso contrário deixe ele quietinho.

Dessensibilização:

Para aqueles que não respondem à “Motivação e Mudança de Comportamento” é preciso ter um pouquinho mais de trabalho. Pegue um gravador portátil e deixe o aparelho na janela, quando houver fogos. Grave o maior tempo possível de barulho. Durante a semana, coloque o som do gravador com o volume próximo do mínimo. Aproveite para engajar seu cachorro na atividade que ele mais gostar. Jogue bolinha, brinque de esconde-esconde, dê pequenos pedaços de biscoito, o que for. A cada dia que passar aumente o volume e continue fazendo as brincadeiras. Faça isso até notar que o cachorro está percebendo o barulho no gravador e não está demonstrando sinais de medo. Deixe o volume aí e continue praticando todos os dias, até o cachorro não prestar mais atenção no barulho.

Cada vez que isso acontecer é a hora de aumentar o volume. Continue assim até conseguir fazer com que o eu cachorro não tenha mais medo dos barulhos, mesmo com o volume alto. Se durante o processo seu peludo ficar apavorado, você avançou rápido demais, volte o volume para o nível anterior, onde o cão estava confortável. Em hipótese alguma tente acelerar o processo se o cachorro não estiver pronto para o próximo passo. Normalmente este método leva um bocado de tempo (você não conseguirá sucesso até este ano novo), mas uma vez atingido o objetivo o cão ficará tranquilo para os próximos anos.

Se você não conseguir ou não tiver paciência para recuperá-lo, pelo menos amenize seu sofrimento. Feche as janelas, ligue o ar condicionado e a televisão o mais alto que ele suportar calmamente.  Deixe que ele fique quietinho em um canto da casa. Se tiver uma caixinha de transporte ou uma casinha talvez sejam boas opções para o peludo se sentir mais protegido. Ponha a caixa de transporte num cantinho escurinho, de preferência onde o cão possa ver você e a porta da sala ao mesmo tempo. Biscoitinhos e guloseimas só quando o cão estiver relaxado. 

Se tudo falhar e o seu cachorro estiver apresentando sinais de estresse extremo, converse com o seu veterinário e veja a possibilidade de dar algum remédio.

 

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